quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A arte de falar


Por falar sozinho é que ninguém o escutava. Com motivo ou sem motivo, sempre acabava por falar demais. Falava do que queria, do que amava, do que temia, do que almejava. Falava desde pequeno, em coro, em choro. Falava. Falava do pai, pro pai. Da mãe, pra mãe. De você. Pra você. Falava, não pensava. Falava sem dizer. Falava ao dizer. Falava o quê? O que não queria, o que não sentia, o que não podia. Falava sem querer. Por querer. Falava por falar. Em cadeia, sem parar. Falava. Falava. Falava. Não calava. Falava na aula, na escola, em casa, no dever. Falava sempre, contente, feliz, infeliz. Falava por um triz. Falava de si, de ti, de mim. Falava. De nós, por vós, com a voz. De tu. Tudo. Falava e não parava. Escrever? Pra quê? Falava mais uma vez. Talvez. Falava. Falava de Fa. De La. E de Va. Falava de vez. Falava uma, duas, três. E outra vez. Na sua vez. E com avidez. Falava sobre isso, aquilo, etc e tal. No Natal. Sobre funeral, cinema e carnaval. Num recital. Falava como música, poema, conto e tudo mais. Falava. Falav. Fala. Fal. Fa. F. Um dia ficou mudo.

4 comentários:

Ricardo Bianchetti disse...

Muito bom a maneira que usa as palavras.Gostei muito de sua prosa poética

Fernando disse...

Por muitas vezes nos cansamos de falar sem ninguém ouvir, e aí terminamos assim mesmo, invariavelmente, mudos. Mesmo que nos reste voz, o mundo não quer escutar. É melhor ficar quieto então.

Emerson Pancieri disse...

Conheço várias pessoas assim, que falam freneticamente!
Mas falar é bom, alivia, diverte, conta caso, segredo, reclama, destaca alegrias, lamenta tristezas.
Já ouvi falar que até revigora...
Quem não gosta de falar e ter alguém que escute? Ou senão uma multidão que ouça o que tem pra falar?
Ótimo texto amor!
Bjão!!

Ricardo Bianchetti disse...

O mestre Bergman em sua obra-prima "Persona" nos faz tirar uma valiosa lição: O Silêncio é poderoso,e quem o domina é capaz de dominar qualquer um a sua volta